ARTIGO

DESISTA, ESTRATEGICAMENTE, SEM CULPA

Texto de Fabiana Marcon

Quem nunca ouviu a frase “Desistir jamais!” ?

Em um mundo tão competitivo, onde há várias frases motivacionais sobre trabalhar e se esforçar muito, em que várias empresas ainda valorizam o “último a sair do escritório à noite”, em que persistir é demonstração de coragem e resiliência é um diferencial,  li um artigo que falava sobre desistir. E, inacreditavelmente, fez muito sentido para mim.

No texto, de Tim Herrera, editor do Smarter Living no New York Times, a reflexão era sobre perdermos muito tempo e energia tentando achar soluções e resolvendo problemas sem sequer questionar se vale a pena solucionar tal problema. É como se vivêssemos em um ambiente tão competitivo, tão desafiador, que temos que ter resposta e resolver tudo, caso contrário somos fracos!

Mas, às vezes, alguns problemas não “merecem” ser resolvidos, por diferentes motivos: porque não valem a pena, porque não são importantes, porque não terão impacto significativo ou porque nem têm solução – e deixá-los para trás é um ato que nos poupa energia e tempo. E surge, então, o conceito de desistência estratégica.

Engraçado como esse conceito existe no mercado financeiro, de certa forma, na prática do stop loss. E existe no mundo corporativo quando ouvimos, diversas vezes, grandes empresários ou executivos falarem sobre “a hora certa de sair do negócio”. Nestes casos, menos pessoais, entendemos claramente a estratégia de abdicar de uma luta para focar esforços em outra – mais produtiva, mais promissora.

E mesmo assim, quando se trata do indivíduo, da pessoa, do profissional, desistir de uma batalha ainda tem gosto de fracasso. Mas por que não praticar na vida pessoal a desistência estratégica?

Trazendo isso para nossas vidas, para o nosso dia-a-dia, é um conceito muito poderoso.

Não estou falando de desistir por desistir, jogar a toalha. Estou falando de tomar a decisão de desistir. Uma ação pensada. Não no impulso. Não baseada na exaustão. Não na fúria. Não na mágoa. Mas sim na estratégia.

Se olharmos sob este aspecto, decidir não resolver uma questão, porque ela não tem impacto significativo na nossa vida ou no resultado do negócio que estamos desenvolvendo, pode ser uma excelente forma de focarmos no que realmente importa, no que faz sentido, no que terá realmente impacto. É alocar energia e tempo (tão raro!) no que faz diferença. É uma sábia decisão, muito diferente da imagem inicial de fracasso associada a quem desiste. Pelo contrário: desistir requer muita coragem, porque pode ser doído, especialmente quando se trata de algo que pessoalmente ainda importa de certa forma.

Trazendo esse conceito para relações pessoais, é abdicar do lema que “o amor supera tudo e tudo vale a pena quando se ama”. Relações abusivas não valem a pena. Desgastes e infelicidades não precisam ser mantidos em nome da luta de recuperar algo que não existe mais. Algumas batalhas simplesmente não se justificam. É duro desistir. Mas nem sempre faz sentido permanecer lutando.

E trazendo esse mesmo conceito para relações profissionais, também parece óbvio. Vemos hoje grandes grupos de profissionais insatisfeitos, desmotivados, estressados, tentando resolver a falta de sinergia entre suas crenças, seus valores e os valores empresariais de seus empregadores. Valores são, na maioria das vezes, princípios inegociáveis. Às vezes, perdemos muito tempo tentando resolver diferenças que são impossíveis de solucionar. Porque simplesmente não paramos para questionar se o problema tem solução ou se vale a pena o esforço. Nem mesmo paramos para pensar se a tentativa de resolver e a energia que esse processo pode consumir é o melhor caminho. Porque, no ambiente em que vivemos, acreditamos que desistir é sinal de fraqueza. E precisamos ser fortes.

Mas, às vezes, procurar outro caminho, desistindo da alternativa atual, pode ser, na verdade, um ato de extrema coragem: mais compensador e mais inteligente.

A desistência estratégica vem como um conforto. Um carinho. Um ombro amigo.

Então, antes de gastar seus neurônios, suas noites e sua energia numa luta cotidiana, pense se o problema que tira seu sono vale a pena ser resolvido e se há solução viável.

Se sim, força! Coloque toda sua energia, dedique-se, esforce-se, faça seu melhor, compre essa briga!

Se não, tenha coragem para, estrategicamente, desistir. Sem culpa.

 

 

Fabiana Marcon é co-fundadora de Self Guru, foi diretora de marketing da Dell Computadores América Latina, diretora da marketing corporativo do Grupo RBS e diretora-geral de Rádios e Eventos do Grupo RBS.