ARTIGO

Alma de Surfista

Texto de Luciana Madrid

 

Que m… que eu fiz?

Pardon my French 🙂 Como assim Luciana, falando m…? “A menina do RH” não fala assim…

Mas o ponto aqui nem é o palavrão em si, mas a m… que eu fiz. Hahahahaha!

Ontem ouvi uma história que eu adorei. O dia está lindo, você acorda cheio de disposição, pega os apetrechos e começa. No início está tudo bem, você vai levantando o tapete, tirando os livros das prateleiras, coloca as panelas pra fora do armário, redescobre aquele vaso lindo lá no fundo do armário e sorri com a ideia de limpá-lo e encher de flores. Tudo certo, até que você vê que são 3:00 da tarde, o dia passando, você olha pra trás e a casa está de pernas pro ar. Você já cansou, quer aproveitar o dia lá fora, mas agora é tarde, tem que terminar a faxina. Aí você pensa, que m… que eu fiz? Precisava mexer no armário da cozinha hoje? Por que não passei só um paninho no chão? A casa nem estava tão suja!!

Foi mais ou menos o que aconteceu comigo. Deixei meu último emprego com a certeza de querer mudar, mas agora me vejo no meio da casa de pernas pro ar. Nem é casa suja, nem é casa limpa. E esse lugar é bem incômodo. Neste momento vem o sentimento expresso no início do texto, que não vou repetir, porque a minha mãe me ensinou que atraímos o que falamos, então é bom falar de coisas boas. E uma coisa que adoro é o mar.

Quando deixei meu último emprego, fiz uma analogia poética com a onda do mar, que a minha experiência lá tinha sido como surfar uma onda gigante e fantástica, mas que, como toda onda, não era pra sempre. Estava pronta para encerrar o ciclo. Um ciclo de muitas conquistas, prosperidade e que sempre aspirei. O que eu não me lembrei na hora (e deve ser porque não sou surfista) que para pegar outra onda tem que remar um monte, na direção contrária do mar, furar a arrebentação, tomar caixote, enfim, é preciso força, foco, persistência. Coincidência ou não, neste final de semana, um amigo estava ensinando meu filho a surfar e dedicou um bom tempo o ensinando a se colocar na prancha e remar. Ainda completou: a remada é o fundamento mais importante do surf! Sábias palavras. Não só do surf, meu amigo, fundamento da vida!  Vale pra mim, vale pra você, pra quem quis mudar ou para quem recebeu um ‘passa pé’ da vida.

E eu lembrei da minha primeira travessia no mar, em determinado momento da prova, eu olhava um ponto na areia, nadava, nadava e não saia do lugar. Eu pensei ali, por quê? Por que não fiquei tomando banho de sol? E não importa se você quis estar ali ou se você foi lançado nesta situação inevitável da vida, você sempre vai se perguntar a razão. Só que a razão neste momento não é o mais importante. O mais importante é remar. Remar é pensar só no agora, não se preocupar com tudo que vem pela frente, se vem outra onda, se falta muito. Remar é se concentrar no que o presente nos propõe.

Quando eu ouvi a analogia da faxina ontem, eu ainda falei, eu sou assim, tiro tudo do lugar e depois vejo o que vou fazer. É a forma mais efetiva de me desenvolver, construir coisas novas. Em vários momentos da minha vida, me joguei em jornadas que não sabia como terminariam (na verdade, nunca sabemos, mas algumas situações nos dão uma percepção de segurança maior do que outras). Uma jornada é sempre mais difícil do que a outra, portanto, esta, a mais difícil na qual já me coloquei até agora. Tem horas que eu preferia não ter este ímpeto e, claro, é sempre na hora em que o braço já está cansando de remar. Neste momento, busco a serenidade na musculatura que construí até aqui. Não estou falando de fracasso ou de sucesso, estou falando do processo de iniciar algo novo, de fazer uma transição profunda. Você não está mais no ponto A, mas ainda não chegou no ponto B. Tem horas que parece que não você não sai do lugar, mas aí não tem outro jeito. Uma remada depois da outra, uma respiração depois da outra, uma reunião depois da outra, um feedback depois do outro, um incentivo, um contrato fechado, um cliente satisfeito, até que enfim, vou passar a arrebentação, olhar aquele marzão, horizonte na minha frente e vou estar pronta pra surfar a próxima onda.

Já respiro aliviada, surge a certeza de que não fiz m… nenhuma. Tenho alma de surfista!

 

Luciana Madrid é co-fundadora de Self Guru e foi diretora de Recursos Humanos da Dell Computadores América Latina.