ARTIGO

Influenciadores da vida real: uma nova abordagem de liderança

Texto de Fabiana Marcon

 

Durante muitos anos liderei grandes equipes, dos mais variados perfis de pessoas.  E sempre tentando melhorar a forma de gestão e os resultados da equipe, me interessei muito por observar os diferentes estilos de gestão que me cercavam – desde meus pares, meus líderes, e gestores que reportavam para mim e tinham suas próprias equipes.

Despertava a minha curiosidade saber por que às vezes, pessoas com o mesmo estilo de gestão tinham engajamento e resultados muito diferentes, enquanto pessoas com estilos totalmente diferentes tinham mais similaridades nos resultados.

Agora pare e pense se você também não tem casos assim na sua volta. Aquele diretor bacana, um queridão, que delega muito, dá feedback constante, mas na hora que precisa engajar o time para fazer algo, só mesmo se estabelecer como regra, porque, naturalmente, não existe engajamento. Daí você pensa que não funciona justamente porque ele é um queridão, ‘nem parece chefe’. Mas tem outro que também é assim, mesmo estilo, mesmas práticas gerenciais, e o time trabalha alinhadinho: as ideias chegam no time, as discussões são ricas, rapidamente os acordos se espalham pelas equipes, viram objetivos comuns, se transformam em resultado.

Já ouviu falar que “chefe não pode ser amigo”, mas tem um que você conhece que é super próximo da equipe e tem o menor índice de conflitos e melhores resultados? Ou um que é totalmente o contrário?

Eu mesma já ouvi que deveria “manter mais distância” de algumas pessoas da minha equipe. E antes de seguir o conselho, observei que, quem me disse isso tinha tanta distância da sua equipe que não fazia ideia do que acontecia no seu time…

Mas qual então o segredo se não é estilo de liderança?

Como alguns líderes conseguem ser tão eficazes e liderar com tanta fluência, que seus times alinham discurso e valores, batalham por objetivos comuns e atingem melhores resultados e outros só conseguem fazer o time andar na mesma direção, autoritariamente, dando ordens e, ao obedecer, desengajadas, as equipes não desempenham da mesma forma?

Pois analisando esses dois cenários e lendo alguns artigos, a principal palavra que se destaca e se difere entre esses dois, independe de estilo. É uma palavrinha muito na moda hoje em dia, graças às redes sociais, mas presente na vida de todo mundo há milhares de anos: influência.

Assim como existe no mundo digital, a influência sempre existiu no mundo real: as pessoas tendem a repetir comportamentos de quem elas admiram, de quem as inspira. Assim como, a partir das redes sociais, as pessoas repetem estilo de vida, copiam o #lookdodia, vão no mesmo restaurante que pessoas que as inspiram foram e pedem o mesmo prato, no mundo real, longe dos likes e das métricas de seguidores, as pessoas também tendem a “seguir” comportamentos, crenças, desafios de pessoas que as inspiram, em quem elas confiam. Então o “segredo” não é formar um modelo de liderança eficaz, mas como criar confiança e gerar inspiração na equipe, para que a equipe “siga” o líder.

E “seguir” não significa não questionar – porque um líder que não aceita questionamentos, que não ouve o time, não terá sua confiança nem sua admiração, muito menos será sua inspiração.

Quando li um artigo sobre liderança através da influência, lembrei de uma reunião.

Estávamos discutindo um projeto que demandaria uma pessoa da equipe levantar 2 horas mais cedo, ir de trem até uma cidade na periferia, buscar um material para entregar para um grupo de funcionários de surpresa, porque um gestor da minha equipe queria surpreendê-los. Eu achei um exagero, mas quis ouvir a pessoa que teria que fazer esse trabalho extra e comentei: vocês nem questionaram, só porque foi ideia do Fulano e tudo que o Fulano propõe, todo mundo acha ótimo e sai correndo fazer, bem feliz da vida! Ô influência! (Estava aí um belo exemplo de influência, esse gestor é talvez o melhor exemplo que já conheci na vida sobre capacidade de influenciar as pessoas, parece mágica!) Mas rapidamente outro diretor da minha equipe respondeu: “logo quem falando, você também é assim! Chega com umas ideias, faz umas perguntas e todo mundo vibra querendo começar logo e poder executar. Vocês dois têm esse ‘dom’ , parecem até meio bruxos”. Na hora rimos todos. Mas confesso que pensei muito a respeito daquilo e depois conversei com alguns dos meus liderados para saber se era uma atitude ruim que eu deveria corrigir. Mas a verdade é que ali estava o primeiro sinal desse fator chamado liderança por influência.

Quando um líder consegue ouvir a equipe, compreender suas necessidades e seus objetivos profissionais, entender como alinhar essas necessidades aos objetivos empresariais, acaba conquistando o respeito e a confiança da equipe, serve de exemplo, inspira e influencia, naturalmente. E quando influencia a equipe, faz com que o time repita comportamentos, compre as mesmas batalhas, ande na mesma direção.

Esse processo de influência acontece todos os dias, em diferentes situações.

Segundo o Centro Criativo de Liderança dos Estados Unidos, a influência na liderança se dá em três dimensões: racional, emocional e colaborativa.

RACIONAL: como já diz o nome é baseado fatores racionais. É quando o líder consegue influenciar a equipe a partir de argumentos, usando fatos e dados e, assim, traz o time para o mesmo “barco”, porque os dados mostram que esse é o caminho.

EMOCIONAL: se dá a partir de argumentos baseados em propósito, valores, crenças. Muitas vezes é preciso tomar decisões, mudar comportamentos, criar projetos em função de decisões mais estratégicas ou mais amplas, de valores empresariais ou da própria equipe, de desejos comuns, de necessidades de mudança. É quando o líder influencia a equipe a fazer algo por uma crença ou um senso comum.

COLABORATIVA:  acontece a partir da proximidade do líder e sua equipe. Ao oferecer assistência, suporte, colaboração, o líder se coloca ao lado da equipe, de mãos dadas com seu time e cria uma laço de confiança e inspiração capaz de fortalecer sua capacidade de influenciar o time.

Claro que todas essas dimensões acontecem ao mesmo tempo, alternadas, dependendo da situação que a empresa, a equipe e o líder estão vivendo.

A grande questão que fica após essa reflexão sobre o poder e o uso da influência na liderança, é como ser capaz de influenciar as equipes. Porque só consegue influenciar, de fato, o líder que consegue criar proximidade  com legitimidade, gerar confiança e inspirar seu time.

E então, você “segue” seu líder ou está pronto para fazer seu time “seguir” você?

 

Fabiana Marcon é co-fundadora de Self Guru, foi diretora de marketing da Dell Computadores América Latina, diretora da marketing corporativo do Grupo RBS e diretora-geral de Rádios e Eventos do Grupo RBS.