ARTIGO

Gestão remota: longe dos olhos, mas no topo das prioridades.

Texto de Fabiana Marcon

 

Nunca se falou tanto em gestão remota quanto agora, em tempos de isolamento e distanciamento social. De uma hora pra outra, equipes inteiras foram transferidas para home office, mudando rotinas, alterando processos e demandando competências de gestão ainda mais específicas dos líderes que passaram a gerir seus times à distância.

 

Nos meus 20 e tantos anos de gestão de equipes, estabeleci alguns conceitos sobre o que realmente importa para se fazer uma liderança efetiva e inspiradora. Gerenciei equipes de todos os portes e perfis. Por vezes compartilhando a mesma sala, outras tendo equipes em países distantes.  E, para mim,  dentre os maiores desafios de gestão, a distância física não parecia um grande atributo. Mas entendo claramente que, para quem tem perfil mais controlador ou menos focado no comportamento humano,  a ausência do contato cara a cara, dia a dia pode ser um grande desafio.

Mas exatamente o que muda na gestão à distância? Por que desafia alguns gestores e o que pode ajudar nesse novo processo?

Comecei falando que gestão remota é mais difícil para quem tem perfil mais controlador ou menos focado em comportamento humano. Porque a gestão à distância requer mais confiança e mais empatia para que funcione de forma mais harmônica.

 

CONFIAR AO INVÉS DE CONTROLAR

Para começar, gostaria de estabelecer um conceito: uma relação saudável de liderança é baseada em CONFIANÇA, sempre. O que reforço aqui é que, à distância, a falta de confiança  é um fator ainda mais crítico. E podemos desdobrar esse conceito em dois  outros.

Abertura. Confiança que se pode falar abertamente com o líder, sobre todos os temas. Se há uma dificuldade, uma dúvida, um incômodo em relação a algum acontecimento, meta, decisão, conceito… o que for, até sobre limitações do trabalho à distância. Não há porque não ter uma conversa franca entre líder e colaborador sobre o assunto, qualquer assunto. Então confiança aqui, refere-se à abertura.

A equipe está longe. Se não puder contar com a confiança e compreensão do seu líder, não funciona.

Consistência. Confiança que se algo foi combinado será feito, de ambos os lados. O velho ditado “faça o que você diz.” Se existe confiança de que o que foi combinado será entregue pelo time, não é preciso checar cada passo de cada pessoa. Se as combinações não são cumpridas, é preciso entender os motivos e endereçar as causas desse comportamento. Fiscalizar, monitorar, cobrar a cada 5 minutos não muda comportamentos. Não ganha jogo. Então confiança aqui refere-se a consistência.

Líderes controladores dificilmente conquistam a confiança da equipe porque também têm dificuldades em confiar – e assim a relação passa a ser muito mais de comando e controle, fiscalização e cobrança do que de confiança.

Em uma situação de afastamento físico, essa relação não se sustenta. É preciso estabelecer um acordo de confiança e, mesmo que aos poucos, trocar o controle por combinações. Criando combinações e permitindo que as equipes cumpram com as entregas combinadas, não há necessidade de fiscalização, de contato exagerado, de mensagens fora de hora.

Combine, confie e cobre na hora certa.

Ao estabelecer essa relação de confiança, estabeleça uma linha de comunicação mais aberta: planos podem sofrer alterações, imprevistos. A equipe precisa estar a vontade para comunicar fatos que arrisquem as combinações, pedir ajuda em caso de dificuldades. Precisa confiar no líder, como um guia que vai orientar, achar alternativas, indicar caminhos ou chamar pessoas que possam ajudar a colocar o plano no eixo novamente.

Se a relação é baseada em confiança, mútua, você não precisa sentar ao lado da equipe para saber que estão fazendo seu melhor.  Você vê isso a cada entrega. Nos sorrisos. Nos resultados.

 

FOQUE NAS PESSOAS. OS RESULTADOS SÃO CONSEQUÊNCIA.

Outro ponto que levantei logo no início: gestão remota é mais difícil pra quem não tem foco natural nas pessoas.

Gestores que olham números, números, números …. e esquecem que por trás dos negócios existem pessoas, têm mais dificuldade de desempenhar bem a gestão remota.

Pela falta de foco natural em pessoas, pensam que, quando distantes, podem focar em rodar as reuniões mais importantes com a equipe e que isso garante o resultado. E, por “reuniões mais importantes”, leia-se revisão comercial, resultados semanais / mensais, relatórios de vendas, participação de mercado, orçamento, etc – só números!

Mas como está o time? Como se sentem? Estão unidos? Estão sobrecarregados, trabalhando horas excessivas? O trabalho remoto perde alguns detalhes que a presença física delata: a pessoa que ficou até tarde no escritório; a que sempre sorri, mas hoje está mais calada; a agregadora que está desviando o olhar, o intervalo do café que sempre é uma bagunça, mas ficou entristecido se alguém pisou na bola com a equipe…

Não adianta focar todo o tempo do mundo na discussão de resultados se não dedicar tempo a entender como está cada um de sua equipe e como a equipe está se comportando como grupo.

Eu sou da opinião que foco em resultados tem que ser consequência de foco em pessoas felizes em processos eficientes. Não existe resultado consistente e durador em um ambiente onde as pessoas não se sentem realizadas, onde não acreditam no próprio trabalho.

E pessoas afastadas das equipes tendem a perder tração no espírito de equipe, desmotivar do bem comum, priorizar seus interesses do que os interesses da equipe. Daí a perder a visibilidade de contribuição e realização profissional é um piscar de olhos. Se o gestor não for uma pessoa absurdamente focada na realização dos profissionais do seu time, na criação e manutenção diária do espírito de equipe, o time, à distância, morre.

Saber como estão, respeitar particularidades de horários, entender diferenças de como cada um se organiza melhor em sua rotina de home office ao invés de se preocupar apenas com os números que cada um entrega é o primeiro passo para que os números aconteçam.

Porque quando se perde a equipe, os números vão todos de carona.

E revisando o texto, todos esses conceitos de confiança, abertura, consistência, foco nas pessoas, empatia… são competências que definem também o sucesso de uma boa liderança pessoalmente. Não são atributos exclusivos da gestão remota. Fato.

Mas à distância, atenção redobrada nessas competências ajuda.

Porque o que está longe dos olhos, o coração precisa se esforçar ainda mais pra ver !

 

Fabiana Marcon é co-fundadora de Self Guru, foi diretora de marketing da Dell Computadores América Latina, diretora da marketing corporativo do Grupo RBS e diretora-geral de Rádios e Eventos do Grupo RBS.