ARTIGO

Por favor, discorde

Texto de Fabiana Marcon

 

“Líderes que não escutam vão terminar cercados por pessoas que não têm nada para falar.”

Tive muita sorte na minha vida corporativa. Trabalhei em grandes empresas, ocupei grandes cargos e sempre fui muito respeitada. Tive a oportunidade de opinar e contribuir com minhas ideias em diferentes projetos e definir rumos a partir de decisões importantes.

Mas apesar disso, com todo mundo, tive momentos tristes, tive dias ruins, chefes que não desejo a ninguém e experiências muito distintas no que se trata de abertura para falar o que penso, porque mesmo as empresas que se propõe a ser “abertas”, onde o feedback é incentivado bilateralmente, nem todos os líderes estão decididos (ou prontos) a ouvir.

Lembro-me muito bem de uma reunião em uma multinacional em que eu trabalhava, estávamos na sede da empresa nos Estados Unidos, sala cheia, eu era a única mulher. Ao meu redor,  diretores e vice-presidentes de marketing e vendas de diferentes países do mundo, alguns tantos dos Estados Unidos que, por seu tamanho, sempre tinham mais de um representante. Eu representava o Brasil: era diretora de marketing, mas ali representava também o diretor de vendas do nosso país que estava em licença paternidade.

Certo momento o Vice-Presidente Sênior, apresentando uma estratégia de vendas global, expôs sua proposta e pediu input dos executivos ali presentes. Enquanto todos balançavam a cabeça, demonstrando aprovação, eu levantei o braço, esperei que ele chamasse meu nome e então disse “acredito que essa estratégia pode não funcionar no Brasil” e emendei os motivos do meu comentário, que não importam nesse momento (mas só pra deixar claro, tinha a ver com taxas tributárias, competidores com fabricação local e variação cambial, ou seja, não era um achismo, era baseado em fatos e experiências de quem vive o mercado em questão).

Quando eu terminei de falar ele sorriu. Pelo sorriso tímido já demonstrava a satisfação com meu comentário. Concordou comigo e pediu que eu trabalhasse numa alternativa local com minha equipe no Brasil. Aos poucos, outros executivos também se manifestaram, com particularidades de suas regiões. No fim da reunião, a estratégia “global” ficou restrita a alguns países, mas o Vice Presidente Sênior que conduzia a reunião, ao invés de se frustrar, me agradeceu dizendo que se eu não tivesse aberto a discussão, teríamos, possivelmente saído dali com a definição de começar a trabalhar, em todas as equipes no mundo, em uma estratégia que não funcionaria.

Conto essa história, porque nem todos agiriam como eu. E nem todos reagiriam como ele. E sem nenhuma falsa modéstia, o mérito da minha atitude aqui é muito mais dele do que meu. Certamente só me senti segura de contrariá-lo num cenário tão formal e sendo a única (ou a primeira) a me manifestar porque o conhecia,  sabia que ele preferia ser contrariado e  atingir um bom resultado do que aplaudido, engrandecer seu ego, numa ideia que não teria resultado positivo. Mas nem todos são assim.

Quando anunciei minha saída desta empresa, ele me chamou para fazermos uma reunião de fechamento e combinarmos a transição, pessoalmente. Para ocupar meu lugar no Brasil, meu cargo foi dividido em duas posições ocupadas por duas pessoas da minha própria equipe – competentes, talentosos e muito merecedores do cargo. Ambos. Nesta reunião, com esse executivo sênior americano, ele elogiou a escolha dos meus sucessores, se mostrou confiante com a performance deles e me disse uma coisa que jamais esqueci. Ele relatou essa cena da reunião que eu mencionei acima e me disse: “não tenho dúvidas de que os meninos são capazes e talentosos. Mas antes de ir, preciso que você ajude-os a fazer uma coisa que pouca gente faz, mas você faz: que discordem de mim quando eu estiver errado.” Foi minha vez de sorrir pra ele. E ele continuou. “Tem muita gente balançando a cabeça pra concordar comigo só porque eu sou ‘o chefe’. Se eu quisesse gente só concordando comigo eu contrataria robôs, preciso de opiniões inteligentes!”

Quase chorei. Talvez tenha deixado escorrer uma lágrima! Muitos líderes falam isso: quero que me questionem, que me desafiem, que discordem de mim. Mas poucos, muito poucos são tão verdadeiros como ele. Ele realmente valorizava isso. E eu me sentia segura sabendo que podia questionar, discordar, expor minhas ideias e criar soluções alternativas.

Quem me conhece sabe o quanto eu valorizo isso. Como gosto de poder opinar, dar ideias, discordar, contribuir sem medo, sem julgamentos. E como gosto que me questionem, decidam fazer de outro jeito, argumentem com ideias e justificativas diferentes das que eu tinha em mente. Como todos aprendem e crescem assim!

Mas como ele faz parte de uma minoria, conheci também vários líderes que adoram dizer que valorizam ser questionados, que praticam a política de portas abertas, mas não ouvem ninguém que esteja hierarquicamente abaixo do seu nível e quando alguém ‘ousa’ discordar de uma opinião sua é considerado “fora do jogo”, contra a “perfeita estratégia” desenhada por ele.

Certa vez, comentava sobre uma situação que se estabeleceu como prática na rotina de um outro líder que conheci (felizmente não foi meu líder), uma pessoa tipo “dono-da-verdade”: era visível como esse comportamento de não se sentir a vontade (ou não tolerar) ser questionado  inibia os talentos da empresa.

Profissionais inteligentes e competentes se frustram quando não podem emitir opiniões, é desanimador se só podem se manifestar quando  concordam,  é estressante ter que  executar as atividades com as quais não concordam se têm argumentos e ideias melhores, mas não há espaço para a discussão. Profissionais com talento por vezes  se viam executando projetos com falhas importantes porque o gestor não permitia ser questionado e não aceitava críticas. E quando era criticado, respondia com ofensas.

Nada mais arriscado para uma empresa do que líderes que não ouvem o time, não escutam quem tem os argumentos do cliente, tem o conhecimento da prática, tem o pulso do dia-a-dia das equipes. Triste ver líderes que não aceitam questionamentos, não toleram críticas, não ouvem. Porque as consequências são conhecidas. Os colaboradores inteligentes e talentosos, que têm o que dizer, serão expulsos se insistirem. Se calarem, ficarão frustrados, infelizes. Ou não aguentarão e vão embora. Ficam os que aceitam apenas concordar. E, honestamente, normalmente são os que não têm muito a dizer mesmo.

 

Fabiana Marcon é co-fundadora de Self Guru, foi diretora de marketing da Dell Computadores América Latina, diretora da marketing corporativo do Grupo RBS e diretora-geral de Rádios e Eventos do Grupo RBS.