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ARTIGOS




Afinal, o que é ter “as manha”?

Texto de Fabiana Marcon

Acompanhei, calada, há uns dias, uma discussão nas redes sociais sobre uma polêmica a respeito desse card.

“UMA COISA É TER DIPLOMA, MBA, DOUTORADO, PÓS E O ESCAMBAU.  OUTRA COISA É TER AS MANHA”

A Lu, minha sócia na Self Guru, não gosta dessa frase. Quando falei que ia escrever a respeito, ela franziu a testa. Eu vi. E entendo. Ela acha a frase pobre, simplista. Um povo tão carente de educação como o nosso, precisa estudar e aprender a interpretar conceitos complexos, ao invés de simplificar ditados e banalizar significados.

Como não gosto de entrar em polêmica de rede social, apenas acompanhei, calada. E, como esperado, a discussão, que começou debatendo a validade e as diversas interpretações da frase acima, rumou para um bate-boca e série de ofensas, o que me fez parar de acompanhar até como leitora apenas.

Mas fiquei com a frase e várias reflexões sobre ela na cabeça.  E quando transborda da cabeça, vem para o “papel”.

A intenção desse texto é trazer aqui diferentes pontos de vista, algumas interpretações da frase e abordar uma discussão maior, que já habita o mundo acadêmico e corporativo, há algum tempo.

Então se você acha que vai ver nesse texto uma defesa fervorosa de uma ou outra posição, não vai. A proposta desse texto não é tomar partido de um lado ou de outro, mas ampliar a discussão sobre as interpretações.

E já adianto, como um spoiler, que minha defesa é de complementariedade em todas as interpretações que fiz.

Interpretação 1 – Desvalorização da formação acadêmica, onde “as manha” significa “jeitinho”

Algumas pessoas criticaram fortemente o card com base nessa interpretação. Muitas se basearam na linguagem utilizada, com palavras como “escambau” e a expressão “as manha” para defender essa interpretação, alegando que claramente se tratava da desvalorização da formação acadêmica e da defesa do famoso jeitinho brasileiro. Os defensores da frase pularam, gritando que Bill Gates não teve formação acadêmica e foram prontamente rebatidos que ele se cercou de pessoas que tiveram.

Mas ele não teve. Fato. Tinha visão, criatividade, e outras tantas habilidades. Também temos que considerar que Bill Gates não é exatamente uma pessoa “comum”, na média de seus colegas, e não sei se pode ser considerado parâmetro de comparação, mas, se por um lado não teve formação tradicional, construiu uma base teórica de forma autodidata e coleciona leituras  muito acima da média, assim como ele próprio. Mas é fato: não tem formação acadêmica tradicional e complementou suas necessidades com outros profissionais que não tinham as habilidades dele, mas tinham outras adquiridas academicamente. Será que ao invés de “jeitinho”, seriam as habilidades de Bill “as manha”? Complementadas com habilidades acadêmicas importantes para a gestão do negócio e criação de uma corporação da dimensão que ele criou? Será que profissionais com as competências adquiridas academicamente, mas sem a visão, criatividade e liderança dele teriam criado tal companhia?

Interpretação 2 – A prática vale mais do que a teoria, sendo “as manha” uma expressão para a experiência.

Alguns defenderam a frase arduamente, alegando que não adianta ter títulos se não tiver experiência. Que o aprendizado acadêmico “perde” para a experiência “no campo”, que a vida real é a melhor escola.

Foram esmagados por um grupo que trouxe questionamentos sobre a formação de médicos, engenheiros e outras profissões que demandam conhecimento técnico especializado.

Não tenho dúvida nenhuma de que há conhecimentos técnicos que precisam estar na base de um profissional para permitir que ele cresça, se desenvolva e até consiga absorver novos conhecimentos e experimentar situações que o façam crescer mais. Pois sem uma base, muitas vezes não é possível dar o próximo passo.

Também não tenho dúvidas de que a experiência contribui muito para qualidade profissional: muita coisa não se aprende na sala de aula, grande parte da solução criativa de problemas se adquire com o tempo, com a experiência.

Faz parte do crescimento profissional fazer, errar, aprender com o erro, criar novas formas de solucionar velhos problemas. São os aprendizados a partir das vivências que fazem com que a gente tome decisões mais assertivas, encontre alternativas para problemas novos, não repita erros.

Lembrei de uma situação quando eu era diretora de marketing de uma empresa de tecnologia. O programa de TV que apresentava melhor retorno junto ao público que precisávamos atingir para venda de um produto estava sendo vetado, porque a apresentadora não conseguia pronunciar corretamente o nome do produto. Só acertava lendo. E sabíamos que quando ela lia, o retorno caía muito porque perdia a espontaneidade. Foi quando uma pessoa do grupo sugeriu que um personagem do programa (que não aparecia na tela, apenas sua voz era ouvida) fosse o responsável pela parte do texto q mencionava o produto. Criamos então um diálogo que funcionasse bem entre eles e resolvemos o problema.  Seria essa ideia, de um membro do time com mais prática em TV, uma “manha”? Uma saída criativa, baseada em experiências anteriores que nos permitiu manter a mídia no ar, coma alta resposta e sem ferir a marca?

Interpretação 3 – As formas de educação acadêmica seriam as “hard skills” e “as manha” seriam as “soft skills”

Sabemos que é fundamental conhecimento técnico, embasamento teórico para determinadas atividades. E, para umas, mais do que para outras.

Mas sabemos também que é crescente a valorização de soft skills entre as competências mais valorizadas no profissional atual: inteligência emocional, boa comunicação, resolução de problemas, criatividade, pensamento crítico, empatia, liderança… Quantas dessas habilidades têm mais sucesso de desenvolvimento e criam mais tração no profissional exercendo suas funções, seguindo exemplos, interagindo, enfrentando situações práticas do que em treinamentos acadêmicos?

Seria a tal frase polêmica uma simplificação banal de que de nada adianta uma sólida formação sem as soft skills

Lembrei de outra situação, quando eu fui diretora de um grupo de rádios. Um programa de rádio top seller entre os anunciantes estava com os espaços comerciais esgotados, mas havia demanda para mais anunciantes, o que significava mais receita. Todas as soluções tradicionais “de livro” encontravam barreiras. Aumentar o tempo do intervalo comercial? Já estava no limite de não perder ouvintes durante o break. Aumentar a frequência do programa? Já era diário, com 2 edições por dia. Aumentar a duração do programa e incluir um break comercial adicional? O diretor do programa não aceitava tal saída pois os comunicadores cansariam, a pauta do programa esgotaria, acabaríamos desgastando o programa. Precisávamos de alternativas fora da caixa, criatividade e solução de problemas! Criamos um programa “aquece” do programa, começando meia hora antes, com um break adicional, escalando 50% do elenco que se revezaria, poupando os integrantes. Vendemos todas as cotas. Seria essa solução, um exemplo de “ter as manha”?

Uma discussão mais ampla e ainda ambígua.

Mas a discussão da importância da formação acadêmica vem tomando mais espaço até dentro dos centros universitários. É cada vez mais presente nas universidades a preocupação de formar profissionais completos, com habilidades técnicas específicas, mas também desenvolver habilidades emocionais, investir em autoconhecimento, treinar as competências extracurriculares.

Ao mesmo tempo que se disseminam nomes de empresários famosos sem formação superior, um relatório da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) demonstra que, em sua grande maioria, profissionais sem formação superior têm remuneração inferior aos diplomados. E quando a graduação passou a ser o título básico, as especializações passaram a apoiar a diferenciação salarial.

Uma tese que ajuda a derrubar a necessidade de diploma para os profissionais é a quantidade crescente de formados em uma profissão que seguiram carreira e atuam em profissões completamente distintas: advogados que são diretores de marketing, psicólogos que são estilistas, engenheiros que são chefs.

Vários especialistas, no entanto, defendem que esse comportamento não desvaloriza o diploma, pois estar dentro da universidade não é apenas sobre as aulas daquela disciplina, mas todo ambiente acadêmico, a convivência com outras pessoas que buscam conhecimento, a interação com o corpo docente.

Enquanto algumas das maiores e mais modernas empresas do mundo divulgam que não exigem mais diploma universitário para contratar profissionais especialistas, as maiores universidades do mundo continuam divulgando a cada semestre seu índice de empregabilidade, fator crítico de avaliação das mesmas em diversos rankings.

Complementariedade

A minha visão, no entanto, e independente dos termos usados na frase inicial desse texto, é de complementaridade, os dois lados da moeda.

Sabemos que há grandes nomes de muito sucesso sem formação acadêmica. Mas não sabemos se, com os conhecimentos teóricos, eles não teriam atalhado caminhos, errado menos, evitado alguns percalços.

Sabemos que as soft skills são e serão cada vez mais valorizadas e críticas para o sucesso em qualquer profissão, qualquer carreira.

Precisamos de um mix de habilidades – hard e soft – para saber como endereçar os desafios, ultrapassar obstáculos, engajar os outros, comunicar com eficiência. Algumas dessas habilidades vão ser as adquiridas academicamente, outras, arregaçando a manga e trilhando seu caminho.

Sabemos algumas coisas. E as outras, teremos ainda que aprender.

Fabiana Marcon é co-fundadora de Self Guru, foi diretora de marketing da Dell Computadores América Latina, diretora da marketing corporativo do Grupo RBS e diretora-geral de Rádios e Eventos do Grupo RBS.

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